terça-feira, 19 de maio de 2009

Sentimentos

Muitos sentimentos têm passado por este tempo.
Por isso a ausência e o silêncio – a reflexão e o tempo de aceitação.

As expectativas são sempre muitas. Os objectivos traçados talvez sejam demasiado altos... e aqui entra um sentimento de frustração, quando esses objectivos não são alcançados. Não são alcançadas da maneira que eu tinha planeado...
Com a frustração, parece que tudo fica abalado... tudo foi em vão... começa a colocar-se em causa toda a minha confiança.
A acompanhar a frustração vem a angústia, que se traduz na alteração do meu comportamento diário – falta de humor, insegurança, ressentimento – DOR.
A ansiedade aumenta, a sensação de vazio, um aperto no coração – MEDO.

Todos estes sentimentos fazem perder-me a minha auto-estima, começa a ficar em causa se estou no caminho certo... e... será que vale a pena continuar?
A tristeza tem estado muito presente nestes dias... desânimo... frustração... – DESILUSÃO.

Sei que o João não é a única criança do Mundo com perturbações no desenvolvimento ... não somos a única família no Mundo a viver e a sobreviver a esta luta diária... mas é suposto ficar mais tranquila por isso?

A minha grande luta durante este tempo todo, é integrar o João na sociedade sem diferenças...

A última Consulta de Desenvolvimento do João empurrou-me para o caminho que eu não quero seguir. Não era esse o meu objectivo. Mas não posso colocar em causa a avaliação, a orientação terapêutica e educacional com que sou confrontada.
Constantemente sou encostada à parede... chamada à realidade! Tenho de aceitar que o João é uma criança que precisa de apoio. Tem necessidades especiais. Só aceitando a necessidade dessas necessidades é que conseguirei que o João se desenvolva e se realize.
... Eu pensei que já tinha aceite... por isso dou tudo o que sei, e tento da melhor maneira criar um ambiente estável e harmonioso, não permitindo que ninguém o destabilize emocionalmente, de forma a evitar angustias que possam perturbar mais ainda o seu desenvolvimento normal.

É um desafio constante... situações difíceis... que muitos que estarão a ler este post, sabem e sentem perfeitamente aquilo que escrevo.

Reconheço, que por vezes tenho excesso de zelo, de protecção... o que acaba por ser contraditório no meu percurso de luta. Pois se por um lado luto para que no futuro consiga ser independente, ter capacidade de resolver os seus próprios problemas e tomar decisões - com o excesso de protecção apenas o quero proteger de que sinta de alguma forma um sentimento de fracasso e rejeição... o que não potencia em nada a sua independência – nem emocional, nem social.
Mas pelos vistos, todos os meus objectivos traçados para o João, tanto a nível académico, como social, estão muito acima daquilo que ele neste momento está preparado para enfrentar.

Sem dúvida que exijo o João integrado na escola regular. Mas nunca pus a hipótese de frequentar a escola regular com ensino estruturado. A necessidade de ser integrado dessa forma...

... é o que tenho feito durante este tempo... reflectindo em todo o meu percurso e aceitar dentro de mim mesma esta necessidade. Deixar de pensar e sentir com coração de mãe, mas conseguir, de forma isenta, o que é o melhor para o João, e não nas expectativas que criei, objectivos que tracei... ultrapassar o preconceito que criei dentro de mim mesma.
As unidades de Ensino Estruturado foram criadas com objectivos muito específicos, e foi uma luta para muitos conseguirem isso. Não posso voltar costas a todo esse trabalho e conquista que essas pessoas conseguiram.

* O objectivo é muito simples:
qualidade de ensino para estas crianças!

Concluindo, e por isso aqui estou hoje a escrever:

Há dias em que nos sentimos cheios de força, capazes de enfrentar qualquer batalha, qualquer adversário. Há dias, em que, por muito cinzento que esteja a ser o nosso dia, temos sempre um sorriso. Existem momentos em que temos coragem para apostar tudo... no que queremos, no que desejamos, no que ACREDITAMOS. Mesmo que nos digam “Não é possível!” ... mas mesmo assim vamos em frente! Trocamos o certo pelo incerto, a razão pela emoção. Erguemo-nos de coragem, seguimos de cabeça levantada, olhos nos olhos, com o coração sempre a bater cada vez mais forte... mas enfrentamos tudo e todos!
Mas em qualquer guerra, qualquer luta, existe um derrotado... e durante este tempo, senti que tinha sido eu...
Nunca abandonei a luta, sempre com esperança da vitória. Apenas o meu sonho, a minha conquista, a minha vitória é que tinham importância.
Nesta consulta, senti que me tiraram a espada... e fiquei sem defesa...
Durante estes dias, senti-me fraca, incapaz e cansada.
Tive a noção que tinha perdido... que perdi tudo...
A coragem estava a ir embora... e senti-me durante estes dias numa solidão escura, incapaz de levantar a cabeça, com o coração e alma demasiado triste... – fazendo afastar-me de tudo e de todos...

Mas o tempo... o tempo cura todos os males!

Mais uma vez, pesquisando, falando com quem sabe (obrigada querida Ana, obrigada querida Rosa, obrigada querida Maria Clara), cheguei à pequenina conclusão: apenas tenho de ter um sentimento dentro de mim – ORGULHO.
Apenas tenho que me sentir orgulhosa por todo o trabalho realizado até aqui, por todos, e orgulhosa pelo menino maravilhoso que o João é.

Orgulho-me não do meu próprio trabalho, mas pelas conquistas do João, estejam elas ou não, dentro dos objectivos que tinha inicialmente traçado.

7 comentários:

prof. Anabela disse...

Mãe Sofia:

Li este post e fiquei com o nó na garganta. Ainda não sou mãe, mas o meu instinto maternal vai-se desenvolvendo e espelhando nos meus pequenos e fantásticos alunos.

Tal como já uma vez lhe "contei" nos meus comentários, tenho um aluno com autismo na nossa sala de aula. A respeito dele, vou sentindo muito do que a mãe Sofia refere, intercalando momentos de euforia e emoção com fases de angústia e frustração.
Muitos dos objectivos delineados ainda estão longe de serem alcançados. Mas, pouco a pouco, passo a passo, às vezes com retrocessos desesperantes, o "meu" João vai evoluindo... devagar... para me lembrar que cada dia tenho que fazer alguma coisa por ele.

Queria partilhar um pouco do modo como o tenho integrado no dito "ensino regular": em vez que uma sala de ensino estruturado (para onde seria retirado frequentemente), criámos um "cantinho estruturado". Todo o trabalho do João é específico para ele, com a rotina típica da metodologia TEACHH, mas dentro da sala de aula. Em alguns momentos, consigo incluí-lo efectivamente no trabalho desenvolvido com os colegas. Noutros momentos, o João faz as tarefas estruturadas dele, a partir do horário, intercalando momentos de trabalho individual com descanso e com trabalho directo comigo ou com um colega que é o "padrinho" ou a "madrinha" dele. Se no início foi uma situação complexa e difícil de gerir, hoje funciona às mil maravilhas.

Isto tudo para lhe dizer: não desista. Continue a investir tanto em casa e exija que a Escola dê uma resposta adequada. As salas de ensino estruturado permitem uma evolução cognitiva interessante, mas não será na socialização que estes meninos revelam mais limitações? Se assim o é, é na sala de aula, com meninos ditos "normais" que eles devem estar, para conviverem com eles e desenvolverem competências sociais adequadas.

Com isto, o "meu" João já ri, bate palmas e dança agarrado (!!!) aos colegas, juntamente com eles. Já tolera e até procura o contacto deles. Já sabe estar em silêncio na sala de aula, mesmo que o impulso seja de saltar ou emitir sons desconfortáveis para a maioria de nós.

Não desista. É possível. E não é ele que tem que se adaptar. É a Escola.

Um beijinho e boa sorte! Coragem!
Ah! E obrigada por ter espreitado o nosso Blog e ter comentado!

Mina disse...

Mamã Sofia
Depreendo, pelas suas palavras, que está na altura de tomar decisões,que serão relativas a entrada do João no ensino, regular ou estruturado.
É sempre uma situação difícil, embora eu ache que deve acreditar no seu coração,e nunca ache que as suas expectativas, são demasiado altas, embora muitas vezes não consigamos atingir os nossos objectivos, mas só a fasquia alta, nos faz continuar a acreditar e a estimula-los.
Em relação á escolinha, eu acho e isto é apenas fruto da minha opinião e também da minha experiência, deve-se começar sempre pelo ensino integrado, será mais estimulante, mesmo quando não tem amigos e se isolam nos cantos, eles estão a apreender e sociabilizar à maneira deles, a mim na altura da escolarização sempre me mostraram como única saída a entrada no ensino especial, que era assim que se chamava na altura, não que tenha alguma coisa contra esse tippo de formação, mas acho que o Bruno nunca teria ido tão longe se não tivesse escolhido este caminho onde pode percorrer com altos e baixos até ao 12º. ano, embora agora esteja a fazer o percurso inverso, e esteja agora no especial em CAO, mas hei-de dar a volta a isso,embora ele não esteja mal de todo, eu sei que ele é capaz de muito mais, e que já ultrapassamos algumas fases complicadas, mas que ainda não atingimos o cume traçado, e tal como a mãe Sofia tem dias que vem o desânimo, mas tenho de reeguer-me rápido para chegar á meta.
A sua intuição e coração vão orienta-la sempre confie nos seus sentimentos. O João já é um vencedor.
Se passar no asperger-eu, puderá ver que o meu rapaz até de bôbô fica bem xD
Bjokas

Anónimo disse...

Mamã Sofia,
É isso mesmo o que deveremos sentir, orgulho, pelos nossos meninos, por nós, por estarmos nesta luta diária, uns dias cheios de força, outros a precisar de colo.
Compreendo o que diz. Também eu tive dificuldade em alterar o percurso que tinha delineado previamente para os meus dois filhos. Ao confrontar-me com a desadequaação das minhas escolhas e com a necessidade de estabelecer percursos diferentes, primeiro veio o sentimento de um não teria as mesmas oportunidades do outro, a desigualdade de tratamento. Depois percebi que só tratando cada um de acordo com a suas necessidades estaria a ser justa para os dois. Depois, ainda, aceitar que de facto o meu filho é diferente e isso salata-me à vista quando vejo os pares da idade dele.
Depois aceitei, ou acho que aceitei, pois, na ultima consulta de desenvolvimento, também não pude deixar de sentir um aperto no peito, quando me disseram que ele seria integrado numa turma regular, porque achavam que ele seria capaz de ir pelo menos até ao 9º ano!!! Está a ver? Eu sempre pensei que iria mais longe ( e ainda acho!) e na hora não pude deixar de ficar desapontada. Enfim, vamos viver um dia de cada vez e tentar ser muito feliz, não é?
Um beijinho para vocês.
Maria Anjos

Dina disse...

Olá, olá

É tão dificil tomar decisões, é tão dificil escolher...

Eu penso que é normal criamos grandes expectativas em relação ao desenvolvimento dos nossos filhos e também é normal que nos custe a adaptar e a aceitar as realidades desse desenvolvimento...

Como sabe tenho 3 filhos.

O Afonsinho tem necessidades especiais, porque tem paralisia cerebral e grandes limitações que exigem trabalho diário e contínuo mas, os meus outros dois filhos não tem necessidades especiais, no sentido literal das palavras mas, também têm necessidades especiais...

As espectativas não estão a ser cumpridas para eles, a menina muito acima do que alguma vez imaginei, talvez por ser o segundo filho, as expectativas já eram mais realistas, mais acessiveis e o menino, muito abaixo, daquilo que alguma vez imaginei...

As duvidas, as preocupações, os medos são os mesmos que tenho com o Afonsinho e por isso tento fazer o melhor em cada momento...

Eu penso que temos que viver dia a dia e irmos aceitando a realidade com que nos deparamos, obviamente, que não aceitar, esconder a cabeça na areia não é a solução...

Também penso que por vezes temos que dar dois passos atrás para depois podermos avançar...

Não posso dar conselhos, porque não conheço a realidade da escola, nem a forma como a integração é feita mas, NÃO DEVE SENTIR-SE DERROTADA, NUNCA!!!

Pense, sempre, que fez sempre o melhor, não está onde gostaria de estar, onde já esperava ter chegado?

Mas, e falo apenas pela experiência que tenho, se tivesse seguido o que me disseram acerca do Afonsinho, hoje onde é que ele estaria???

Se não tivesse lutado pelo João como tem feito até hoje, onde é que ele estaria???

Tenho a certeza que com calma, irá conseguir tomar a melhor decisão para o bem estar do João, para o que é MELHOR para ele, porque é nisso que nos temos que concentrar e fazer o que é melhor para eles, talvez não seja (não sei bem se é verdade ou não!) o melhor para nós ou o que nós desejavamos...

Beijinhos e muita força!!!!

Grilinha disse...

Este post toca a todas as mães que conhecem uma realidade diferente.

Conheço cada sentimento que descreves, cada sensação que falas.

Mas mamã Sofia. Nada há para ser dito a não ser que tens feito o melhor. Digo-o sinceramente porque há muito que te conheço. A intuição de uma mae é uma ferramenta poderosa. Acredito que entre todas as batalhas emocionais que travas contigo propria, encontras o teu caminho. Vivendo um dia de cada vez...apreciando o filho que tens...
Quando olhares para tras alcançaste objectivos. Se foram aquém não interessa. "Eu caminho devagar mas nunca para trás" disse Abrahn Lincoln. É perseguindo alguns objectivos irrealistas que ganhamos algo...
Ficamos frustrados, mas temos de saber lidar com a frustração, pois ela faz parte da vida e das pessoas que desejam coisas grandiosas.

Muita força. Adoro os teus pensamentos, a forma como escreves...adoro a tua forma de ser mãe. sempre foste uma grande inspiração.
Acalma o teu coraçaõzinho e sente um abraço apertadinho e silencioso vindo desta tua amiga.

Beijos

Isabel Santos disse...

Querida Sofia,imagino a sua angustia,mas acredite que durante estes anos tem feito um trabalho fabuloso para o seu João e para tantos outros meninos,cujas mães seguem o seu blog.
Siga o seu coração mas tb o conselho da prof. Anabela, a quem desde já dou os parabéns,dentro da própria sala ter o cantinho do seu menino é óptimo,assim ele não sei do seu ambiente está com os seus coleguinhas e pode socializar-se muito mais fácilmente.
Não perca as forças,lute pelos seus direitos e principalmente pelos do João,junte-se com outras mães que a possam ajudar nessa luta.
Sei que é dificil e à medida que crescem cada vez é mais complicado pois se estão no ensino regular muitas professoras infelizmente não estão sensibilizadas para os problemas das nossas crianças e o mais fácil é arrumá-los a um canto.
Nâo deixe de lutar,o João merece,tal como o meu e outros tantos meninos e meninas eles são seres tão especiais que só nós pudiamos ser a familia deles.
Desanimos todos temos,frustrações,tristezas,tudo é normal,deite tuso cá para fora e nunca ponha em causa que não está a fazer o melhor pelo seu filho.
Tenho escrito pouco sobre o meu João mas se ler o da mãe saberá que a nivel de desenvolvimento neste momento estamos numa fase boa,mas quem sabe o que vai acontecer no próximo ano lectivo em que muda toda a equipa?
Um dia de cada vez e se precisar de mim eu estou sempre por aqui,sei que bão posso ajudar muito,mas haverá sempre uma palavra amiga à sua espera como já teve algumas vezes para mim.
Avó isabel

Estrumpfina disse...

Querida Mamã Sofia,

parece que estes sentimentos são comuns.

Eu também intercalo os meus estados de espírito entre um grande optimismo e um profundo desânimo.

Quando penso que vivo bem com a diferença e que tenho consciência das limitações da minha filha, de repente deparo-me com a realidade como se fosse nova para mim. Não encontro explicação.

É difícil evitar a frustração, mas nunca de modo algum penses que falhaste.

A sala de ensino estruturado é na verdade algo porque muitos pais batalharam mas não se basta a ela própria.

Espero que a sala TEACCH do João seja gerida por uma boa equipa, questiona tudo, sugere, acompanha de perto e quem sabe seja só uma pequena âncora e o João passe mais tempo na sala de referência.

um grande beijo