sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

CHORO

Quando eu era pequena, costumava chorar em frente ao espelho. Chorava, fazia caras e bocas, como se estivesse a representar e fosse a actriz principal. Mas o meu choro era verdadeiro! As caretas eram apenas acessórios.
Neste momento o João chora em frente ao espelho. Muitas vezes encontro-o sentado, de joelhos, de pé... mas em frente a um espelho a chorar.


Mas será que o reflexo que ele vê no espelho é ele? Será que ele olha para o espelho e simplesmente está a ver-me, e olha-me com compaixão, como uma mãe que quer ser boa, ideal, perfeita. Será que ele olha para o espelho e procura em fantasia a sua mãe ideal? - ou simplesmente olha para o espelho e chora pela consciência da sua dor?
Isto tem acontecido muitas vezes antes da ultima crise que o João teve. Tenho a sensação que não estive atenta aos sinais que ele me estava a dar...

Geralmente uma criança quando chora é porque se sente frustada, precisa de mostrar que algo não está bem... o choro de uma criança nunca é simples ou despropositado.

O seu comportamento é inflexivel e cheio de rotinas... vamos sempre pelo mesmo caminho para a escola. Não podemos fugir muito à hora de deitar e alimentar. As mudanças de ambiente costumam resultar em episódios de agitação e/ou agressividade. Por vezes, até mudanças minimas causam agitações mais severas do que por vezes mudanças maiores.
Não imaginam como o João ficou radiante de felicidade quando encontrei o seu spiderman. Não aquele que estavm nas caixas guardados, que são quase iguais, até são do mesmo tamanho... era aquele com que ele tinha adormecido...
Em desespero ao final do dia, decidi revirar a cama toda... estava debaixo do colchão...
Já sei, mais ou menos, o que foi alterado na rotina do João. Infelizmente não fui informada a tempo de poder evitar a chegarmos a este ponto e me aperceber que o João estava a pedir-me ajuda... Já percebi o que está a incomodar o João. Mas não sei como vou conseguir ajudá-lo.
Terei de falar com a A. e a R. Perceber quais as melhores formas de abordar o assunto com o João e ajudá-lo a aceitar essa mudança para a rotina dele.
Neste momento está instável, é uma bomba relógio.
É preciso estar sempre atento a tudo, para antecipar algo que possa provocar uma crise...
Sinto-me de novo... impotente!

Ele voltou para dentro da sua concha... para o seu próprio mundo...



3 comentários:

Grilinha disse...

O teres percebido é um grande passo. Tens de equacionar maneiras de o voltar a fazer sentir seguro.
Estou confiante que conseguirás.
Um beijo

Cocas disse...

Vim parar aqui por acaso, e fiquei por aqui a ler-te.

É linda a forma como escreves sobre os teus filhos, principalmente sobre o João. És uma Mãe maravilhosa, que sorte tem o João de te ter. Aposto que dizes o contrário, mesmo naqueles momentos em que ele tem crises e ficas desesperada.

Fiquei a admirar-te... a tua força, e o carinho com que escreves. Desejo-vos tempos de paz.

Muitos beijinhos
Cocas

Mário Relvas disse...

Olá,

na verdade o autista precisa de ser preparado para a mudança da rotina.Sei que se voltar numa curva que não a habitual a caminho de casa, ele resmunga e diz: pai não é por aí.E vem em alcolália.No entanto, se antes da curva eu disser ao meu filho que vamos para o mesmo sítio, por outro lado e começar a fazer isso várias vezes, alterando o caminho, ele passa a saber as alternativase não resmunga.

Coisas...

saudações e um sorriso